O cenário deste ato é um lugar comum em minha dramaturgia interna. Madrugada, aproximadamente 4 horas da manhã. Local, meu quarto. Em frente ao computador, em minha mesa de trabalho. No computador toca algum metal, que serve como entretenimento para as horas de insônia. Angustiado com minhas dúvidas, sento na cadeira gelada pelos ares da madrugada e tento refletir enquanto escrevo. Mas sobre o que será este texto? É preciso que ele seja vibrante, afinal vai marcar uma reestréia. Mas qual tema poderia fazer dele um sucesso. Já sei, posso falar de... não, isso já está passado demais. Seriam as mesmas idéias só com formas diferentes para quem nunca as leu. O curioso é que essa idéia parecia a princípio, ser muito boa. E esse é o problema, não a solução dele. Talvez se eu parar de olhar para essa formiga andando na minha mesa, eu pudesse pensar em algo melhor. A fumaça do incenso aceso no chão sobe e se põe entre a imagem de meus olhos e a tela do computador, criando uma separação tênue entre o escritor e o texto. Inicia-se a divagação: Penso nas cartas que se acumulam como penas caídas de alguma ave na soleira de minha porta. Quando um vendo fará com que elas ganhem vida e voltem a voar? Fim da divagação. Hora de voltar a me centrar no texto. Afinal, não foi assim que eu aprendi que se escreve uma redação nos idos tempos em que fazia pré-vestibular? Início de nova divagação: Pré-vestibular, nossa, isso já faz tanto tempo. Quantos anos? Espere, deixe-me contar. Simplesmente inacreditável. Oito anos e nada parece ter mudado tanto assim. Oito anos são quase uma década. O que será que houve neste tempo que passou tão desapercebido por mim? Lembro dos dias de aula de 1997. A correria de manhã para tentar chegar cedo no colégio em um esforço quase sempre inútil, como é válido lembrar. A minha namorada esperando no telefone público da esquina, com juras de que não me esperaria no dia seguinte, esperando sempre, também é válido lembrar. Os sonhos passando rápido diante de meus pés. Os lanches em frente ao colégio, os momentos de dúvida e de escolha sobre o futuro. Sem dúvida aquela foi uma hora decisiva para a situação na qual estou agora.

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